GUIA: CESÁREA EM PEQUENOS ANIMAIS

INDICAÇÃO:

A cesariana na cadela e na gata é geralmente um procedimento de emergência, pois a distocia prolongada coloca em risco as vidas da mãe e/ou neonato.
            A cirurgia pode ser planejada e realizada antes do início do trabalho de parto, se houver a ocorrência de distocias devido a presença de lesões ou anormalidades preexistentes que comprometam o canal do nascimento.
         A cirurgia é indicada quando a distocia resulta de uma inércia uterina primária, ou inércia uterina secundária decorrente de distocia de mais de 24 horas, distocia obstrutiva (feto muito grande).


ANATOMIA CIRÚRGICA:


           O útero gravídico repousa no assoalho abdominal durante a última metade da prenhez. Os cornos uterinos pesadamente gravídicos encontram-se paralelos e em contato entre si, ao contrário dos cornos divergentes no animal não –prenhe.
         Ao se fazer a incisão abdominal durante uma cirurgia cesariana, o cirurgião deve estar ciente de que o útero se encontra próximo a parede abdominal fina e distendida.
         O útero é composto de três camadas: túnica serosa (perimétrio), túnica muscular(miométrio) e túnica mucosa (endométrio). A túnica serosa é uma camada de peritônio que recobre todo o útero.
A camada muscular é composta de uma camada externa longitudinal fina e uma camada interna grossa. O miométrio mais profundo contém vasos sangüíneos, nervos e fibras musculares circulares e oblíquas. A túnica muscular é a camada de maior força tensil. A túnica mucosa é a mais grossa das três camadas.
TÉCNICA CIRÚRGICA:
        Realiza-se tricotomia na fêmea desde a cartilagem xifóide até o púbis, e prepara-se inicialmente o abdome com uma limpeza cirúrgica antes da indução da anestesia para reduzir o tempo de anestesia total.
Realizam-se a indução e a intubação em mesa de operação. Geralmente a fêmea não está em jejum antes da anestesia, portanto, deve-se intubá-la rapidamente para minimizar o risco de aspiração, pois ela deve vomitar durante a indução.
A velocidade da operação também é importante nas cirurgias cesarianas, pois o longo período “incisão – retirada” se associa com um aumento da asfixia e depressão fetais.
Após a indução da anestesia, amarram-se os membros da paciente para baixo e completa-se rapidamente a preparação cirúrgica final do abdome.
Colocam-se panos e toalhas em quatro quadrantes no abdome, desde a cartilagem xifóide até a borda pélvica, para abrir espaço para a extensão da incisão abdominal se necessário.
Faz-se uma incisão na linha média ventral começando-se no umbigo. A extensão da incisão é determinada pelo tamanho estimado do útero. As glândulas mamárias ficam freqüentemente hipertrofiadas, e o cirurgião não deve invadir o tecido mamário quando fizer a incisão cutânea.
O cirurgião deve também lembrar de que o útero se encontra aumentado e não deve ser lacerado ao se entrar na cavidade abdominal.
Uma vez terminada a incisão abdominal de extensão adequada, protegem-se as bordas do ferimento com tampões de laparotomia umedecidos com solução salina estéril.
Exterioriza-se o primeiro corno uterino e depois o segundo por meio de uma elevação cuidadosa através da incisão.

Envolvem-se as vísceras circundantes e subjacentes  com tampões de laparotomia umedecidos adicionais , para impedir a contaminação abdominal com fluído fetal.
Faz-se então uma pequena incisão com um bisturi em uma área relativamente
avascular na face ventral ou dorsal do corpo uterino, deve-se ter cuidado em não lacerar inadivertidamente um feto com bisturi. Estende-se então a incisão uterina com uma tesoura até um comprimento suficiente para remoção dos fetos.

No caso de uma distocia deve-se remover primeiro o feto que encontra-se parado no corpo uterino. Traz-se cada feto a incisão através de uma compressão suave do corno uterino. Isso é feito espremendo-se o corno cranialmente ao aumento de volume. Uma vez que o feto encontre-se perto da incisão pode-se segurá-lo e aplicar uma tração suave para facilitar uma remoção rápida a partir do útero. Á medida que se remove cada feto, rompe-se o saco aminiótico para permitir que se inicie a respiração.


Deve-se remover os fluídos fetais do campo operatório por meio de sucção para minimizar a contaminação. Pinçam-se então os vasos umbilicais e rompem-se os mesmos aproximadamente  2 a 3 cm da parede abdominal fetal.
Remove-se então lentamente a placenta associada a partir do endométrio por meio de uma tração suave para minimizar a hemorragia.
Repete-se esse procedimento até a retirada de todos os fetos. Caso encontre dificuldade em mobilizar os fetos para baixo, pode-se realizar incisões adicionais nos cornos uterinos.
Antes do fechamento palpa-se o útero a partir do canal pélvico até os ovários para se certificar de que todos os fetos e placentas tenham sido removidos.

Uma vez que se tenham removido todos os fetos, o útero começa a se contrair rapidamente, essa contração é importante no cessamento da hemorragia. Se o útero não iniciar a contração no momento do fechamento, pode-se administrar ocitocina (1a 2 unidades / Kg IM ou EV) ou maleato de ergonovina (0,02 a 0,1 mg/Kg IM).
         O útero pode ser suturado com fio absorvível, utilizando-se agulhas sem corte. Aproximam-se cuidadosamente as bordas da incisão uterina com padrão de Cushing contínuo, inversor e de camada dupla, seguido por uma sobressutura de Lembert contínua.

Antes de retornar o útero ao abdome, deve-se inspecionar o fechamento e lavar o útero com uma solução salina estéril amornada. Se ocorrer uma contaminação abdominal durante a manipulação cirúrgica, deve-se lavar o abdome com solução salina estéril amornada.
Recoloca-se o omento sobre o útero e as outras vísceras abdominais antes do fechamento abdminal.
Fecha-se a linha Alba com suturas interrompidas simples de um material de sutura absorvível de tamanho apropriado. Também pode se utilizar material de sutura não absorvível para fechar a linha Alba. Fecha-se o tecido subcutâneo com fio de sutura absorvível 3-0 ou 2-0, e a pele com fio não absorvível.

Créditos: Maria Carolina Guido
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