Biologia e Patologia: Sarna Demodécica

O ciclo biológico se processa todo no hospedeiro e compreende: ovo, larva, protoninfa, ninfa e adulto, macho e fêmea. A fêmea deposita cerca de 20 a 24 ovos no folículo piloso. Larvas e ninfas (protoninfa e deutoninfa) são carreadas pelo fluxo de sebo para a boca do folículo, onde atingem a maturidade. O ciclo se completa em 18 a 24 dias. D. canis, do cão, chega a invadir glânglios linfáticos e órgãos viscerais (GUIMARÃES et al, 2001). 
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No início da infecção, há discreta queda de pêlos da face e dos membros anteriores, seguida por espessamento da pele, e a sarna pode não avançar além das áreas em contato; muitas dessas discretas lesões desaparecem espontaneamente sem tratamento. Por outro lado, as lesões podem disseminar-se por todo o corpo, e esta demodicose pode assumir uma de duas formas: escamosa ou pustular (URQUHART et al, 1998).

a) Forma localizada (escamosa): ocorre em pequenas áreas, com formação de pequenas pústulas avermelhadas com alopécia. A pele fica quente e espessada nos locais atacados. As regiões mais afetadas são a cabeça e as patas dianteiras, mas podem ser detectadas feridas no tronco e nas patas traseiras. Esta forma é geralmente benigna e o animal recupera-se espontaneamente. Sua recorrência é rara (GUIMARÃES et al, 2001).
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b) Forma generalizada (pustular): ocorre em áreas mais generalizadas, com prurido intenso, eritema e alopécia. Ataca ao redor do focinho, olhos e pernas anteriores, podendo se espalhar para todo o corpo do animal. A ação do ácaro está, sobretudo, na dilatação dos canais foliculares e pilosos, acarretando o transporte das bactérias para a profundidade dos poros, com o aparecimento de pústulas liberando um forte odor desagradável (GUMARÃES et al, 2001).
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Em geral, o acarino está associado com a bactéria Staphylococus aureus, que pode ser a causa real da sarna, sendo que os ácaros apenas criam as condições necessárias para o desenvolvimento da bactéria. Foram registrados casos da presença de Demodex em órgãos internos do cão, tais como pulmão, fígado, rim, bexiga, parede intestinal, baço e principalmente, nódulos linfáticos. Provavelmente os ácaros atingem os órgãos internos pela circulação linfática e sangüínea (GUIMARÃES et al, 2001).

A população de Demodex na pele dos cães parece estar sob o controle imunológico. A maioria dos cães pode assumir um pequeno número de D. canis em seus folículos pilosos, sem entretanto apresentarem sinais da doença. Animais velhos, mal-nutridos, ou com baixa imunidade devido a doenças, ou tratamento com medicamentos imunossupressores, são candidatos à sarna demodécica. O diagnóstico é feito pelo exame a fresco do pus das lesões, entre lâmina e lamínula, onde os parasitos são relativamente abundantes. Os casos generalizados de sarna demodécica eram antigamente de prognóstico fatal, porém atualmente existem tratamentos que podem salvar o animal (GUIMARÃES et al, 2001).

Os hábitats ou locais de infestação foram descritos para 7 espécies. Dada a dificuldade em se estabelecer uma identificação positiva em preparações histológicas, torna-se difícil determinar o hábitat preciso para algumas espécies. Por exemplo, D. ovis tem sido registrado nas glândulas de Meibomian, no folículo piloso e glândulas sebáceas e ainda no tecido epitelial dos pêlos sensoriais. Em todos estes registros, foi assumida a ocorrência de uma única espécie de demodecídeo, parasitando a ovelha. No entanto, pode-se estar lidando com infestações de duas ou mesmo três espécies distintas de demodecídeos (GUIMARÃES et al, 2001).

A mesma suposição da ocorrência de uma única espécie foi feita para os demodecídeos do homem, onde hoje se admite a existência de duas espécies: D. folliculorum e D. brevis (GUIMARÃES et al, 2001).

Destacam-se as seguintes espécies:
Demodex folliculorum: espécie cosmopolita, parasita do homem, encontrada nos folículos pilosos e glândulas sebáceas da face, sobretudo ao redor do naris e pálpebras; possivelmente toma parte na gênese dos “cravos” (GUIMARÃES et al 2001).

Ordinariamente esta espécie é inofensiva, não apresentado importância médica ao homem. Já foi observada no cerume auricular. Muito se tem discutido sobre a participação do Demodex folliculorum na acne e outros processos cutâneos; entretanto, o parasito tem sido encontrado com mais freqüência em indivíduos aparentemente sãos (GUIMARÃES et al, 2001).

Esta espécie, em algumas ocasiões, pode estar associada a uma série de dermatoses faciais, tais como rosácea, dermatite perioral, pústula facial, blefarite e outras. Foi encontrado placas micóticas com numerosos Demodex, contendo dentro de seu corpo esporos de Microsporum canis. Acredita-se que D. folliculorum possa desempenhar um papel patogênico na transmissão de vários microorganismos, introduzindo-os em outras áreas da pele ou em outros hospedeiros. No Brasil, de 100 indivíduos investigados, 72% foram positivos. Entre os casos positivos, 51% tratava-se de parasitismo por D. folliculorum 2%, por D. brevis (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex brevis: baseando-se em um critério taxonômico limitado, há existência de duas subespécies D. folliculorum longus e D. folliculorum brevis. Há evidências de que as duas “subespécies” eram de fato espécies distintas, apresentando nichos discretos. Embora D. folliculorum e D. brevis sejam encontradas no complexo pilo-sebáceo, estudos em cortes histológicos revelaram que tais espécies ocupam nichos distintos na pele. D. folliculorum habita os folículos do cabelo, acima do nível das glândulas sebáceas, enquanto D. brevis é encontrado na glândula sebácea (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex canis: é a espécie que parasita o cão. Ao contrário da espécie anterior, é decididamente patogênica, provocando a dermatite denominada “sarna demodécica” ou “lepra dos cães”. O parasita pode estar presente, porém assintomático na maioria dos cães. Os filhotes adquirem o ácaro da mãe nos primeiros dias de vida. A sarna demodécica é encontrada geralmente em animais com 3 a 9 meses de idade. A disseminação parece ser por contato direto. A sarna demodécica canina ocorre freqüentemente quando o animal apresenta uma deficiência no sistema imunológico, em conseqüência de uma imunossupressão primária ou secundária. A imunossupressão primária é provavelmente hereditária, como uma deficiência na produção de linfócitos T; a imunossupressão secundária é resultante do uso de corticosteróides ou terapia citostática, neoplasia maligna ou hepatopatias (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex cati: causa nos gatos uma sarna semelhante à dos cães. Parasito raro, cujo ataque é geralmente confinado às pálpebras e região periocular da face. Foi encontrado em grande número no canal auditivo do gato, produzindo uma secreção excessiva de cera, porém sem sinais de inflamação. Os sinais clínicos incluem: alopecia, descamamento, eritema e hiperpigmentação na região facial. Todos os estágios deste ácaro foram redescritos e comparados com os de D. canis. Acreditava-se que esta demodicose também estivesse associada à imunossupressão (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex gatoi: esta espécie foi descrita recentemente, em todos os seus estágios, em gato doméstico nos Estados Unidos. O hospedeiro apresentava uma síndrome de imunodeficiência e estava fortemente parasitado por D. gatoi e D. cati. Esta espécie difere de D. cati por não parasitar o folículo piloso, sendo encontrada na superfície epidérmica (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex phylloides: é a espécie parasita do porco. O parasita penetra no folículo piloso e glândulas sebáceas da pele, onde completa seu ciclo biológico. Quando presente em pequeno número, não causa danos aparentes. Ocasionalmente, a população aumenta rapidamente causando lesões bem definidas na pele dos animais. Ocorrem dermatites pustulosas, localizadas sobretudo no peito, flancos e face interna das coxas, onde a pele é de textura mais delicada (GUIMARÃES et al, 2001).

As pústulas variam de tamanho, algumas chegam ao tamanho de uma noz. Podem se tornar confluentes ou romperem, causando o aparecimento de úlceras. Na ausência de lesões, somente o estudo de cortes histológicos seriados, em diversas áreas do corpo, onde a pele é menos espessa (dobra da orelha, pescoço, região interna das coxas), revelará a presença do ácaro. A ocorrência desta espécie é relativamente rara no Brasil, provavelmente pela dificuldade em se estabelecer um diagnóstico correto (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex equi: ocorre no cavalo. Normalmente não é patogênico. Pode produzir prurido, descamação epitelial e alopecia. Surge geralmente no pescoço ou cernelha, espelhando-se para a cabeça, membros anteriores e dorso (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex bovis: ocorrem duas espécies nos bovinos: Demodex bovis, considerada a espécie mais patogênica, enquanto se suspeita da patogenicidade de D. tauris (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex bovis causa um tipo de sarna nodular pruriginosa, com pústulas ou nódulos que podem variar desde o tamanho da cabeça de alfinete ou de uma ervilha, até ao de um ovo de galinha, ao redor das orelhas, omoplata, e área intercrural, contendo uma substância caseosa (GUIMARÃES et al, 2001).

A saúde do animal não é muito afetada por esta parasitose; o maior dano é causado à indústria do couro, produzindo orifícios e reduzindo o seu valor industrial. D. bovis habita as glândulas sebáceas, que vão se dilatando pelo ataque do parasita, perdendo sua forma característica e degenerando, formando nódulos esbranquiçados muito numerosos. Seu conteúdo é formado de uma substância amorfa caseosa, onde os ácaros são encontrados, em todos os estágios de seu ciclo biológico (GUIMARÃES et al, 2001).

Demodex caprae: provoca igualmente na cabra uma sarna nodular pruriginosa, cujos nódulos variam do tamanho de uma ervilha ao de uma noz. É geralmente encontrado na superfície interna da pele, não sendo visível externamente até o animal ser sacrificado. No Brasil, a sarna demodécica em caprinos foi observada, pela primeira vez em Pernambuco (GUIMARÃES et al, 2001).
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GUIMARÃES, J. H.; TUCCI, E. C.; BARROS-BATTESTI, D. M. Ectoparasitos de Importância Veterinária. São Paulo: Plêiade, 2001. 

URQUHART, G. M.; ARMOUR, J.; DUNCAN, J. L.; DUNN, A. M.; JENNINGS, F. W. Parasitologia Veterinária. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998. 
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