HERPESVÍRUS EQUINO


Herpesvírus equídeo (EHV) são vírus DNA, pertencente à família Herpesviridae, possuindo envelope, tamanho aproximado de 150 nm, com nucleocapsídeos de formato icosaédrico e aproximadamente 100 nm de diâmetro. O vírus replica no núcleo e matura por brotamento através da membrana citoplasmática e, assim, adquire o envelope (MURPHY et al., 1999).

Em equídeo s existem nove herpesvírus identificados: cinco deles pertencem à subfamília alphaherpesvirinae, dois a gamaherpesvirinae e um ainda não classificado. O cavalo é o hospedeiro natural dos EHV-1, EHV-3, EHV-4, EHV-2 e EHV-5, enquanto que os asininos são hospedeiros do AHV-3 (homólogo ao EHV-1), AHV-1 (homólogo ao EHV-3) e AHV-2. O isolamento de um novo EHV foi relatado, trata-se de um vírus neurotrópico de uma gazela (“Gazelle herpesvírus-1”; EHV-9) indicando que a lista atualmente conhecida de herpesvírus equídeo está em provável crescimento. EHV-1 e EHV-4 são clinicamente, economicamente e epidemiologicamente os mais relevantes patógenos (ICTV, 2009).

EHV-1 era classificado como EHV-1 subtipos 1 e 2. A partir de 1981 foi adotado uma nova classificação, na qual o EHV-1 subtipo 2 foi designado como EHV-4, mas o reconhecimento oficial desta distinção ocorreu somente uma década depois. As diferenças entre o EHV-1 e o EHV-4 estão ligadas à capacidade de multiplicação do vírus, às vias de eliminação para o meio externo e à sintomatologia clínica. Essas diferenças se devem a presença de antígenos de superfície (glicoproteínas) específicos para cada grupo presente no envelope viral que influenciam significativamente a biologia dos mesmos. Mas ambos antigenicamente e geneticamente mostram considerável reação cruzada devido ao nível de semelhança entre 55 a 96% na sequência de aminoácidos idênticos das glicoproteínas (RIETCORREA et al., 1998; ARDANS, 2003).

Experimentalmente, o EHV-2 está associado a uma leve rinite e conjuntivite, enquanto que o EHV-3 causa uma infecção venérea auto-limitante na genitália externa. Embora ambos EHV-2 e EHV-3 sejam muito prevalentes, comparados aos EHV-1 e EHV-4, as doenças provocadas pelos EHV-2 e EHV-3 são consideradas de baixo impacto econômico e de pouca importância veterinária. Epidemiologicamente, os dados de prevalência do EHV-5 são escassos (MURPHY et al., 1999; ARDANS, 2003).

EPIDEMIOLOGIA 

Ambos EHV-1 e EHV-4 são endêmicos na população mundial de equinos. Devido à similaridade antigênica entre EHV-1 e EHV-4 a interpretação dos dados sorológicos coletados até o início da década de 1990 era complicada devido à indisponibilidade de um teste com anticorpos específicos para cada tipo. Por isso, a interpretação de alguns dados sorológicos obtidos através de testes com anticorpos convencionais (não específicos), tais como a vírus-neutralização e a fixação de complemento, é imprecisa. Também é necessário destacar que os estudos soro-epidemiológicos são complicados na população de cavalos que foram vacinados contra EHV-1 e/ou EHV-4 (AGUIAR et al., 2006).

Nos EUA, 85% dos potros testados entre 6 a 8 meses pós-desmame foram inicialmente soropositivos para EHV-1, mas a soro-conversão foi consequentemente corrigida para EHV-4 (HIRSH et al., 2003).

Por outro lado, Gilkerson et al. (1998) reportaram que a infecção do EHV-1 em potros que estão mamando pode ocorrer cedo, até os 30 dias de idade. Entretanto, éguas lactantes podem ser fontes de infecção primária do EHV-1 para os potros que futuramente transmitem o vírus para outras éguas e potros.

Gilkerson et al. (1999) relataram a prevalência de anticorpos contra EHV-1 em éguas e potros de 26,2% e 11,4%, respectivamente; enquanto que mais de 99% das éguas e potros testados tinham anticorpos contra EHV-4. O estresse é uma das causas de ativação do vírus latente que é re-excretado no meio, tornando-se fonte para tais transmissões. Embora dados epidemiológicos similares não sejam observados para o EHV-4 a alta prevalência deste vírus referida anteriormente sugere que a infecção do EHV-4 em cavalos provavelmente também ocorre logo após o nascimento.

O impacto da infecção pelo EHV-1 pode ser assolador, particularmente, quando ocorrem episódios de aborto. No Brasil, o primeiro isolamento do vírus foi descrito por Nilson e Correa em 1996. Em um estudo sorológico realizado em São Paulo, foram encontradas 17,6% das amostras positivas. De 348 amostras de soros examinadas, provenientes de vários municípios do estado do Rio Grande do Sul, foram encontradas 84,7% positivas, com título médio geométrico de 5, utilizando a prova de soroneutralização. Casos de abortos já foram descritos no Rio Grande do Sul (VARGAS e WEIBLEN, 1991).

No que tange a pesquisa de anticorpos contra o EHV, a prevalência de 17,71% de equinos soropositivos foi determinada por HEINEMANN et al. (2002) que se aproxima dos dados obtidos por DIAS (2000), quem observou 21,70% e 13,18% de animais soropositivos na Ilha de Marajó e no resto do Estado do Pará, respectivamente. Quanto às propriedades, foi observada uma prevalência de 40,62% de fazendas positivas para o EHV no Município de Uruará. Estes dados reforçam os achados por DIAS (2000), que detectou a presença de anticorpos contra o EHV em 30 de 33 fazendas do Estado do Pará, concluindo-se que o EHV encontra-se amplamente disseminado nas propriedades rurais do município de Uruará/PA.

Em 1993, foi realizado um estudo pela EMBRAPA/CPAP, com a cooperação do Animal Health Institute da Inglaterra, com 50 equinos, incluindo animais que apresentavam sintomatologia respiratória, tendo sido encontrado 36% dos animais positivos para o EHV-1 e 58% dos animais positivos para o EHV-4 (SORIANO et al.,1997).

Alguns dados publicados até o momento sugerem que o EHV-1 é também um importante patógeno de equinos selvagens, como exemplo pode-se citar os casos de aborto e de mortalidade perinatal de potros em um rebanho de zebra (Equus grevyi) no zoológico de Chicago (BLUNDEN et al., 1998).

PATOGENIA E SINAIS CLÍNICOS 

EHV -2 (também chamado de citomegalovírus) é a causa de uma infecção comum que começa no nascimento e continua por períodos muito longos em potros. Alguns destes potros infectados desenvolvem sinais clínicos de corrimento nasal purulento, febre e linfadenopatia, em uma síndrome que permanece cerca de uma semana. Raramente os animais acometidos morrem (BLOOD e RADOSTITIS, 1991).

Exantema coital equino causado pelo EHV-3 é uma doença venérea, que se manifesta por lesões papulares, pustulares e, por fim, ulcerativas na mucosa vaginal que, em geral, é eritematosa. As úlceras podem atingir 2 cm de diâmetro e 0,5 cm de profundidade, circundadas por uma zona hiperêmica. Nos casos graves, as lesões se estendem pela vulva e pela pele do períneo em torno do ânus. No macho, lesões semelhantes são encontradas no pênis e no prepúcio. Muitos casos discretos não são percebidos porque não há doença sistêmica e os animais acometidos comem bem e se comportam normalmente (BLOOD e RADOSTITIS, 1991).

O efeito do EHV-3 sobre a fertilidade é um equívoco, embora possa haver perda de libido durante o estágio ativo da doença em garanhões. A infecção parece espalhar-se por éguas carreadoras clinicamente normais. O período de incubação é de dois a dez dias e a evolução até a cicatrização total das úlceras é de cerca de 14 dias. Infecção bacteriana secundária pode originar corrimento purulento e evolução mais prolongada. Em alguns surtos, ocorrem lesões na pele dos lábios e em torno das narinas e na conjuntiva. Também podem estar presentes no focinho do potro (BLOOD e RADOSTITIS, 1991).

Antes de 1981, um único vírus “EHV-1” era conhecido como o causador da rinopneumonite febril, ataxia, aborto e doença neonatal do potro. Entretanto, foi estabelecido, desde 1972, que as cepas de EHV-1 seriam distinguidas como vírus respiratório (subtipo 2) e abortogênico (subtipo 1). O EHV-1 foi relatado primeiro por Manninger (1949) como o responsável por ataxia e aborto, mas o isolamento viral de casos semelhantes ocorreu muito tempo depois. Na forma aguda, naturalmente ocorre doença respiratória em infecções por EHV-1 e EHV-4 sendo caracterizada por febre, anorexia, descarga nasal variável e doença ocular. A proliferação bacteriana na mucosa nasal pode ser um fator que contribui para o desenvolvimento da rinopneumonite. Experimentalmente, entretanto, EHV-1 causa uma doença muito mais severa que a induzida pelo EHV-4 (PATEL e HELDENS, 2005).

A replicação primária do EHV-1 ocorre nas células epiteliais do trato respiratório superior e nos linfonodos locais, resultando em uma viremia associada a leucócitos. Esta viremia, na infecção aguda, é um pré-requisito para o aborto e para a paresia devido à replicação do EHV-1 nas células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos do SNC e do útero prenhe (REED e TORIBIO, 2004).

Uma infecção generalizada dos vasos sanguíneos endometriais resulta em uma severa vasculite e trombose multifocal, as quais podem resultar em um aborto por lesões no endométrio sem infecção viral do feto. Lesões vasculares menos extensas podem permitir a transferência de vírus ao longo da barreira uteroplacentária e, então, ocorre o aborto devido à infecção do feto pelo vírus. Uma infecção transplacentária próxima ao parto pode resultar no nascimento de um potro vivo infectado, acompanhado usualmente pela morte alguns dias após o nascimento, condição conhecida como doença neonatal do potro (PATEL e HELDENS, 2005).

Estas diferenças no potencial abortogênico podem estar relacionadas a diferenças no nível de viremia ou de infecção das células endoteliais que variam conforme a cepa do vírus. Mais de 95% dos abortos provocados por EHV-1 ocorrem no terço final da gestação e muito raramente em outros estágios. Não se sabe por que ocorre um aumento de susceptibilidade no terço final de gestação das éguas. Uma possível explicação pode estar relacionada a fatores do hospedeiro ainda indefinidos, os quais reativam o EHV-1 da latência nos leucócitos. Estudos in vitro têm demonstrado que tanto a IL-2, como a gonadotrofina coriônica equina (eCG) influenciam na reativação do vírus nos leucócitos latentemente infectados (REED e TORIBIO, 2004).

Um baixo nível de infecção dos vasos sanguíneos do útero, no início da prenhez, tem sido demonstrado e isto leva a hipótese de que a extensão da lesão vascular uterina pode ser importante para determinar se o vírus é capaz ou não de atravessar a placenta. Lesões na placenta e a utilidade do exame placentário no diagnóstico de abortos provocados pelo EHV-1 têm sido recentemente descritas (PATEL e HELDENS, 2005).

Em contraste com o EHV-1, a patogenicidade do EHV-4 tem sido pouco estudada. A viremia associada aos leucócitos não é uma característica consistente da infecção por EHV-4, tampouco o aborto e a paresia. Apesar da alta incidência comparada ao EHV-1, dados avaliados implicam que a ocorrência de aborto em éguas, nas infecções pelo EHV-4, varia extremamente (REED e TORIBIO, 2004).

Em Kentucky, EUA, entre 1983 e 1992 a incidência de abortos devido ao EHV-4 foi menor que 1%, enquanto que na Inglaterra entre 1987 e 1993 a porcentagem reportada foi acima de 16%. Exames detalhados de lesões vasculares induzidas pela infecção por EHV-4 em potros também têm sido descritos. Foi verificado que o EHV-4 replica-se nas células endoteliais dos vasos sanguíneos e foi sugerido que a patogenia do EHV-4 em abortos talvez tenha uma base vascular similar ao que ocorre com o EHV-1. As diferenças observadas podem ser devido a diferenças entre cepas, mas ainda não há comprovação. O que se sabe, porém, é que no geral o EHV-4 não está associado a abortos e evidências para seu papel em paresias são limitadas (PATEL e HELDENS, 2005).

Enquanto o EHV-4 é um patógeno do trato respiratório cuja replicação se restringe, normalmente, à mucosa do epitélio do trato respiratório superior e ao tecido linfóide regional, as consequências potenciais para a saúde pela infecção por EHV-1 se estendem além do trato respiratório (REED e TORIBIO, 2004).

EHV-1 tem o potencial para causar enfermidades mais sérias e invasoras envolvendo órgãos de outros sistemas. Mesmo na ausência de sinais claros de enfermidade respiratória, a infecção pelo EHV-1 (e raramente também pelo EHV-4) pode conduzir ao risco de desenvolvimento de cinco sequelas clínicas importantes: aborto, mortalidade neonatal, mieloencefalopatia, infecção pulmonar vasculotrópica e enfermidade ocular. Existem cepas hipervirulentas de EHV-1 que possuem a capacidade de causar elevados índices de manifestações e sequelas clínicas (PATEL e HELDENS, 2005).

DIAGNÓSTICO

A identificação rápida e inequívoca do agente etiológico do primeiro caso de enfermidade respiratória dentro de um grupo de cavalos é essencial para ajudar o médico veterinário a tomar as decisões do tratamento e planejar as estratégias para controlar a disseminação epizoótica da infecção. Os principais diagnósticos diferenciais para enfermidade respiratória viral nos cavalos incluem, além de EHV-1 e EHV-4, vírus da influenza, adenovírus, rinovírus e o vírus da arterite equina. Somente os sinais clínicos não são suficientes para diferenciar os herpesvírus de outras causas comuns de enfermidades respiratórias em equinos, portanto testes laboratoriais são necessários para realizar o diagnóstico (ALLEN, 2002).

A confirmação do diagnóstico de enfermidade respiratória por herpesvírus baseia-se na demonstração do EHV-1 ou do EHV-4 nas secreções nasofaríngeas ou nos leucócitos dos cavalos afetados. O êxito do diagnóstico laboratorial para o EHV-1 e EHV-4 depende das técnicas utilizadas para a coleta, manejo, transporte, armazenamento e processamento das amostras clínicas (REED e TORIBIO, 2004).

Os métodos disponíveis no diagnóstico laboratorial para herpesvírus equídeo incluem o isolamento do vírus, a reação em cadeia de polimerase (PCR), imunofluorescência para detecção de antígenos virais e provas sorológicas (ALLEN et al., 2006). A prova laboratorial para EHV-1 ou EHV-4 que oferece os melhores resultados, é o isolamento do vírus de secreções nasofaríngeas ou dos leucócitos, depois de sua inoculação em monocamadas de cultivos celulares suscetíveis. Os efeitos citopáticos do EHV-1 e EHV-4 são característicos e pode ser feita a identificação sorológica dos herpesvírus com anticorpos monoclonais tipoespecíficos (REED e TORIBIO, 2004). Os procedimentos normais de isolamento viral tem a desvantagem de necessitar de vários dias para obtenção do resultado, o que o faz de menor utilidade para o clínico (YACTOR et al., 2006).

A amplificação de DNA viral mediante PCR é um ensaio rápido, sensível e utilizado com mais frequência para a detecção da infecção do trato respiratório por EHV-1 ou EHV-4. Podem ser processadas para a detecção de herpesvírus as mesmas amostras utilizadas para o isolamento viral (LAWRENCE et al, 1994).

LATÊNCIA

A latência é uma importante estratégia epidemiológica garantindo a sobrevivência e a disseminação do vírus dentro da população de hospedeiros naturais. O cavalo portador crônico é aquele no qual o EHV-1 e/ou o EHV-4 persiste de maneira não infecciosa, além do período de recuperação da infecção aguda do trato respiratório. A proporção de portadores assintomáticos é alta. Aproximadamente 60% dos cavalos que se recuperam da infecção respiratória primária provocada pelos herpesvírus tornam-se portadores latentemente infectados, durante toda a vida, capazes de servir como uma fonte de infecção para cavalos suscetíveis (REED e TORIBIO, 2004).

Os reservatórios celulares para os vírus latentes EHV-1 e EHV-4 são os neurônios sensitivos dos gânglios trigêmeos e os linfócitos T dos gânglios linfáticos que drenam o trato respiratório superior, como: nódulos linfáticos submandibulares, retrofaríngeos e bronquiolares (SLATER et al., 1994). Nestas células, o genoma viral está presente, sem a produção de partículas virais infecciosas. No entanto, a latência é um estado reversível, no qual os genomas dos vírus latentes podem reativar-se para recuperar sua plena atividade de transcrição com uma produção consequente de vírus infeccioso (REED e TORIBIO, 2004).

Enquanto que no estado infeccioso EHV-1 e EHV-4 estão expostos totalmente ao controle imune do animal, o herpesvírus latente está protegido do reconhecimento e da destruição pelo sistema imune e pode permanecer como hóspede por toda a vida, mesmo na presença de uma forte imunidade adquirida (ALLEN, 2002).

Experimentalmente, o EHV-1 tem sido reativado em cavalos infectados naturalmente ou experimentalmente e em animais livres de patógenos específicos, os chamados SPF (specific pathogen free), sob imunossupressão, mas com diferentes resultados. O vírus é reativado principalmente em leucócitos e, ocasionalmente, na mucosa nasal, após o tratamento com corticosteróides em cavalos. Nos animais SPF, foi observada uma maior reativação do vírus na mucosa nasal, após o tratamento com corticosteróide e ciclosfosfamida. Os linfócitos T CD4+/CD8+ foram definidos como sendo o sítio de latência principal do EHV-1, os quais são ativados pela IL-2 e gonadotrofina coriônica equina (ECG). Já a reativação e excreção nasal do EHV-4 foram relatadas em cavalos de campo infectados, após o tratamento com corticosteróide (REED e TORIBIO, 2004). 

Os fatores fisiológicos responsáveis pela reativação do vírus latente e a relativa importância dos sítios de latência neural e linfóide sob condições naturais permanecem indefinidos. Contudo, é conhecido que a reativação espontânea pode ocorrer mediante diversos estímulos como desmame, cirurgias, estabulação, transporte prolongado, parto, lactação, condições climáticas extremas, rompimento social e doenças terminais, podendo ocorrer na ausência de sinais clínicos (PATEL e HELDENS, 2005).

IMUNOPROFILAXIA

As glicoproteínas têm um importante papel na biologia dos herpesvírus, particularmente no processo de infecção (adsorção do vírus, penetração e disseminação célula-a-célula), patogenicidade e como alvo do sistema imune, uma vez que são expressas na superfície das células infectadas. Para ambos, EHV-1 e EHV-4, existe uma homologia, quando comparados ao herpesvírus simples 1 (HSV1), em pelo menos 10 das 11 glicoproteínas conhecidas (gB-gp14, gC-gp13, gD-gp18, gE, gG, gH, gI, gK, gL, e gM) (TELEFORD et al., 1998).

Do ponto de vista da imunoprofilaxia, uma importante questão é o nível de proteção cruzada proporcionada pelo EHV-1 e/ou EHV-4 nos cavalos. Infelizmente, os dados experimentais são escassos e contraditórios, principalmente, os baseados na sorologia. EHV- 4, em potros SPF, induz anticorpos neutralizantes em iguais títulos para ambos EHV-4 e EHV-1, já o EHV-1 produz uma resposta com baixa especificidade. Alguns dados experimentais sugerem que algumas cepas de EHV-1 são melhores que algumas de EHV-4 em provocar resposta específica (TEWARI et al., 1993).

A eliminação do EHV das criações de cavalo é teoricamente impossível devido à característica do estado portador. A prevenção, ao invés da erradicação ou do tratamento da enfermidade, oferece o meio mais eficaz para controlar a enfermidade respiratória causada pelo herpesvírus e suas possíveis sequelas. As estratégias dirigidas à redução do impacto econômico e ao bem-estar associado às infecções respiratórias pelo EHV-1 e EHV-4, incluem a imunização profilática e a aplicação de práticas preventivas de manejo (AGUIAR et al., 2008).

A vacinação contra a enfermidade respiratória causada pelo EHV-1 e o EHV-4 é recomendada como parte do programa preventivo para todos os cavalos com risco de adquirir a infecção. Teoricamente, todos os potros tem títulos de anticorpos específicos para o EHV-1 e o EHV-4 que podem ser medidos depois da ingestão do colostro da mãe. Os anticorpos maternais para o EHV-1 e o EHV-4 decaem, pois possuem uma meia-vida de 26 dias. Os potros se tornam soronegativos e, por conseguinte totalmente suscetíveis à infecção aos 5-6 meses de idade (REED e TORIBIO, 2004).

Portanto, devem-se administrar as vacinas e as subsequentes revacinações a fim de proporcionar um nível máximo de proteção imune aos potros, principalmente em momentos estressantes, como os associados ao desmame, transporte, introdução, reagrupação social, vendas, treinamento e competições (REED e TORIBIO, 2004).

Nos grandes grupos de animais, uma cobertura vacinal ampla pode ajudar a reduzir a disseminação da infecção, devido aos benefícios agregados à imunidade populacional. As éguas prenhes devem ser imunizadas conforme as recomendações do fabricante, sempre utilizando produtos que já demonstraram ser eficazes na prevenção do aborto provocado pelo EHV-1. Nenhuma vacina atual demonstrou ser eficaz para proteger contra a manifestação nervosa causada pela infecção do EHV. Atualmente, estão disponíveis vacinas inativadas e vacinas com vírus vivo atenuado (REED e TORIBIO, 2004).

É importante ressaltar que a vacinação de potros não previne a infecção respiratória, porém diminui a intensidade dos sinais clínicos e a magnitude e duração da excreção de vírus infeccioso. O estado de portador latente, tampouco é prevenido pela vacinação. Por conseguinte, a meta da vacinação contra a enfermidade respiratória pelo herpesvírus é a diminuição da severidade da enfermidade respiratória e redução da difusão da infecção dentro da população de equinos (AGUIAR et al., 2008). O desenvolvimento de uma vacina mais eficaz contra a enfermidade respiratória pelos herpesvírus em equinos jovens é definitivamente uma prioridade (REED e TORIBIO, 2004).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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