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[PDF] CONTENÇÃO QUÍMICA DE CÃES E GATOS

Muitas vezes, é necessário conter os pequenos animais por meio de fármacos, para que o exame clínico realizado pelo médico-veterinário seja satisfatório e seguro. Sob o efeito de tranquilizantes ou sedativos, animais agressivos, agitados ou estressados podem ser mais bem examinados, possibilitando menores alterações paramétricas decorrentes do estresse, evitando agressões ao profissional que os examina. Conter quimicamente um animal não deve significar, contudo, apenas imobilizá-lo, mas diminuir o estresse da manipulação, com conforto e segurança para o paciente e para o médico-veterinário. Assim, animais que demonstrem agressividade ou medo excessivo devem ser manipulados somente após a contenção química. Frequentemente, é necessário que felinos, de maneira geral, e cães de raças violentas ou de comportamento nervoso sejam contidos farmacologicamente, a fim de permitir a realização de exames de boa qualidade. Além dos fatores inerentes ao indivíduo (raça, temperamento, estado físico), não podem ser esquecidos os estímulos externos que perturbam a tranquilidade do animal. Desse modo, mesmo aqueles animais dóceis e obedientes ao proprietário podem exigir tranquilização quando em contato com um ambiente novo, movimento de pessoas estranhas e percepção de odores e ruídos com os quais não estejam acostumados. Alguns exames clínicos podem, ainda, envolver dor, quando uma região lesada ou inflamada precisa ser manipulada, como ao examinar-se traumatismos osteomusculares, feridas, enfermidades otológicas etc. Outros exames, apesar de não provocarem dor, podem envolver certo desconforto por parte do animal (p. ex., abordagem da cavidade oral, da região genital ou do aparelho oftálmico). Além disso, ressalta-se a necessidade de alguns posicionamentos específicos exigidos por exames diagnósticos, utilizando radiografias ou ultrassonografias, possíveis apenas com a tranquilização ou mesmo com a anestesia geral do paciente (p. ex., necessidade de relaxamento muscular potente para a realização de exame radiográfico para o diagnóstico de displasia coxofemoral e imobilidade completa do paciente para a coleta de liquor cerebrospinal). Ao realizar o exame de um animal em que se utilizou tranquilizante, sedativo ou até mesmo anestésico geral, o médico veterinário deve conhecer os efeitos dos fármacos empregados para que seja possível avaliar se os seus achados clínicos são decorrentes do uso destes ou da enfermidade a ser pesquisada. Alterações de temperatura corporal, frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão arterial são algumas das consequências mais comuns após o uso desses agentes.  84  Alguns fatores devem ser considerados para o uso da contenção química (Quadro 3.1). A espécie e a raça do paciente a ser examinado podem determinar o método mais adequado de contenção física, a necessidade e o tipo de fármaco a ser utilizado. As características fisiológicas, a diferente distribuição de receptores farmacológicos e as peculiaridades comportamentais resultam em diferentes alterações paramétricas em cães, gatos e pequenos animais exóticos. O efeito final também varia bastante entre as espécies, e a escolha correta do fármaco a ser utilizado depende do conhecimento prévio desses efeitos. As diferenças existentes entre raças, especialmente de cães, devem ser conhecidas e consideradas pelo médico-veterinário que irá realizar a contenção química. Enquanto raças grandes e agressivas exigem procedimentos que possibilitem uma abordagem segura, raças muito pequenas podem ser agitadas e de difícil manipulação. O estado físico do paciente pode limitar o uso de alguns fármacos que trariam risco a pacientes desnutridos, hipovolêmicos ou desidratados, por exemplo. A existência de outras enfermidades concomitantes, tais como as cardiopatias, os processos respiratórios, as hepato e nefropatias, assim como as doenças neurológicas, também pode influenciar a escolha do agente a ser utilizado. Caso o exame resulte em dor física, o fármaco ou a associação escolhida deve produzir analgesia adequada. O jejum, por outro lado, é imprescindível para a segurança de determinados procedimentos nos quais o relaxamento da cárdia produzido pelo fármaco facilita o regurgitamento do conteúdo gástrico, podendo ocasionar obstrução das vias respiratórias por aspiração, levando à pneumonia ou até mesmo à morte. Além disso, destaca-se a importância do jejum em posicionamentos nos quais o estômago repleto possa comprimir o diafragma e comprometer a capacidade respiratória do paciente. Dentre os fatores externos a serem considerados nas diferentes situações, é necessário conhecer o local em que o animal será examinado e a necessidade de posicionamentos específicos e de imobilidade requeridos pelo exame a ser efetuado. Por fim, a via de aplicação possível na situação apresentada também influencia a definição da técnica e dos medicamentos a serem empregados.